A polêmica sobre os cortes de árvores em Niterói
Nos últimos anos, e particularmente entre 2025 e 2026, a retirada de árvores em diferentes bairros de Niterói provocou protestos, questionamentos nas redes sociais e mobilização de moradores. A Prefeitura tem respondido que as intervenções são realizadas com critérios técnicos, seja porque determinadas árvores apresentam risco de queda, seja porque algumas espécies causam problemas à infraestrutura urbana, e se defende baseada em uma política de renovação da arborização, que dá preferência à utilização, na arborização urbana, de espécies nativas da Mata Atlântica.
A questão é mais complicada do que pode parecer à primeira vista. Afinal, árvores realmente caem. Galhos grandes podem causar acidentes graves e até mortes. Mas árvores adultas também constituem uma das principais defesas que uma cidade possui contra o calor, além de abrigar animais, interceptar água da chuva, retirar carbono da atmosfera e tornar as ruas mais habitáveis. Talvez, portanto, a pergunta correta não seja simplesmente “devemos ou não cortar árvores?”, mas outra: quando é realmente necessário remover uma árvore adulta e como avaliar o custo ambiental dessa decisão?
Um primeiro cuidado necessário para compreender o que está acontecendo em Niterói é não colocar todas as remoções de árvores na mesma categoria. As justificativas apresentadas pelo poder público podem ser separadas, grosso modo, em três situações bastante diferentes.
1. Árvores mortas, doentes ou com risco de queda. Essa é a situação menos controversa. Em julho de 2026, por exemplo, a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos explicou a retirada de árvores da Rua Presidente Backer, em Icaraí. Segundo o órgão, eram exemplares de cássia-siamesa (Senna siamea), espécie exótica, que se encontravam mortos ou severamente comprometidos por fungos. A madeira ressecada apresentaria grande risco de quebra de galhos e troncos. Após a retirada, a Prefeitura anunciou a recuperação das calçadas e o plantio de espécies nativas da Mata Atlântica.
Não se pode tratar esse tipo de risco como mera invenção burocrática. Em fevereiro de 2026, uma mulher de 73 anos morreu em Icaraí durante um acidente envolvendo a queda de galhos de uma árvore, e moradores de outros pontos da cidade também têm relatado quedas de galhos e solicitado podas ou intervenções preventivas.
2. Árvores vivas que entram em conflito com a infraestrutura urbana. Aqui começa uma discussão mais difícil. Uma árvore pode estar saudável e, ainda assim, causar prejuízos à cidade. Suas raízes podem levantar a calçada, atingir tubulações ou entrar em conflito com postes e redes elétricas. Em outros casos, a queda de suas folhas no outono pode ser tão abundante que causa problemas de escoamento das águas das chuvas.
A prefeitura reconhece que muitos desses conflitos são consequência de escolhas antigas de arborização. Em Icaraí, por exemplo, moradores relataram à Prefeitura problemas provocados por raízes de amendoeiras que atingiam tubulações. O município tem declarado que evita atualmente novos plantios de amendoeiras, flamboyants e figueiras em determinados contextos urbanos e prioriza espécies consideradas mais compatíveis com o espaço disponível.
Em outubro de 2025, a Prefeitura anunciou explicitamente que vinha substituindo amendoeiras por ipês e paus-brasil, argumentando que as primeiras danificavam calçadas e prejudicavam a acessibilidade.
3. A substituição planejada da composição arbórea da cidade. Esta talvez seja a parte menos evidente do debate. Niterói não está apenas retirando árvores mortas. Existe uma política deliberada de modificar gradualmente a composição da arborização urbana. A administração municipal fala em “readequação” da cobertura arbórea, procurando substituir espécies consideradas pouco apropriadas por árvores nativas da Mata Atlântica. Entre as espécies atualmente priorizadas aparecem pau-brasil, pau-ferro, sibipiruna, oiti, mirindiba, ipês e jequitibá-rosa. Em julho de 2026, a prefeitura informava ter plantado mais de mil árvores desde março, e em agosto, o total anunciado já ultrapassava 1.300 indivíduos.
Há bons argumentos para aumentar a participação de espécies nativas na arborização. Elas podem favorecer interações com a fauna local e contribuir para uma arborização mais integrada à biodiversidade regional. Também é perfeitamente razoável procurar espécies cujo porte, sistema radicular e arquitetura de copa sejam compatíveis com o local onde serão plantadas. No entanto, existem questões a serem levantadas.

Uma árvore por outra?
É justamente neste terceiro grupo que aparece uma questão que merece discussão pública mais cuidadosa. Uma grande amendoeira pode não ser a escolha que faríamos hoje para determinada calçada. Ainda assim, enquanto estiver ali, sua copa continua produzindo sombra, evaporando água, acumulando carbono e oferecendo abrigo e alimento para a fauna urbana. Existe uma expressão que aparece frequentemente quando árvores urbanas são removidas: haverá “reposição”. A palavra tranquiliza, mas pode provocar uma impressão enganosa.
Imagine uma amendoeira com algumas décadas de idade, tronco grosso e uma copa que cobre boa parte de uma rua. Agora imagine que ela seja retirada e que, no mesmo lugar, seja plantada uma muda de pau-brasil com poucos metros de altura. A situação pode ser descrita como uma árvore retirada e uma árvore plantada, mas ecologicamente não ocorreu uma substituição equivalente. Uma árvore grande oferece uma área de copa que uma muda levará muitos anos para alcançar. E diversos serviços ecossistêmicos dependem justamente do tamanho da árvore e da extensão de sua copa.
Árvores urbanas resfriam o ambiente bloqueando a radiação solar através do sombreamento e retirando calor do ambiente através da evapotranspiração, e copas maiores e mais densas estão associadas a efeitos de resfriamento importantes nas cidades. O mesmo raciocínio vale para outros serviços que as árvores nos prestam. Elas interceptam e diminuem a velocidade da água das chuvas, retiram poluentes atmosféricos, acumulam carbono em sua biomassa e fornecem estruturas utilizadas por aves, insetos, fungos, líquens e outros organismos. A quantidade de muitos desses serviços aumenta conforme a árvore cresce. Por isso, uma muda é a promessa de uma árvore; não é ainda o equivalente ecológico da árvore adulta que foi retirada.
Isso não significa que árvores velhas jamais devam ser cortadas. Significa apenas que a equação “uma retirada = uma plantada” é insuficiente para medir o impacto ambiental de uma intervenção. Talvez fosse mais apropriado que programas municipais de arborização acompanhassem não apenas o número de árvores, mas também a área de cobertura das copas. É perfeitamente possível plantar centenas de mudas e, durante alguns anos, possuir menos sombra urbana do que antes.
Existe ainda uma outra questão importante, e que deveria ser alvo de preocupação da prefeitura. De onde vêm essas árvores que estão sendo plantadas? Dizer que foram plantados cem paus-brasil, por exemplo, não significa necessariamente que foram acrescentados cem indivíduos geneticamente diversos à arborização da cidade. Tudo depende da origem das sementes utilizadas para produzir essas mudas. Se elas foram obtidas de sementes coletadas de um pequeno número de árvores-matrizes, pode-se produzir um grande número de árvores, mas com baixa variabilidade genética, e isso não é um mero detalhe. Em árvores, a diversidade genética dentro de uma mesma espécie constitui uma espécie de seguro contra as incertezas do futuro. Indivíduos geneticamente diferentes podem responder de maneira diferente a seca, calor, salinidade, poluentes, fungos, insetos e outros fatores de estresse.
Imagine que centenas de árvores da mesma espécie sejam produzidas a partir das sementes de apenas algumas matrizes e espalhadas por diferentes bairros. Caso apareça no futuro um fungo ou inseto ao qual aquele conjunto particular de genótipos seja especialmente suscetível, grande parte das árvores poderá responder de maneira semelhante. A diversidade genética não impede o aparecimento de uma praga, nem garante que algumas árvores serão resistentes, mas aumenta a probabilidade de que uma população contenha indivíduos capazes de tolerar melhor uma nova pressão ambiental. Por isso, a uniformidade genética pode transformar aquilo que inicialmente parece uma arborização numerosa em uma população biologicamente muito mais vulnerável do que os números sugerem.
Portanto, a prefeitura deveria explicar à população de Niterói se está atenta à diversidade genética das árvores que está plantando na cidade. Substituir uma cobertura arbórea por árvores mais adequadas pode parecer uma boa ideia, mas se não considerarmos a origem das mudas, podemos estar presenteando a cidade com árvores vulneráveis, que nos deixarão sem sombra à primeira praga ou fungo que aparecer.
Tomografia do tronco como ferramenta de avaliação de corte de árvores realizada pela prefeitura de Niterói
A Prefeitura de Niterói, a partir de abril de 2026, passou a utilizar uma ferramenta chamada tomografia de árvore para averiguar a necessidade de remoção de uma árvore da área urbana. Ela foi criada em meados da década de 90 como um método alternativo para avaliação e cuidado com esse grupo de plantas pois, antes dela, a única forma de se ter certeza se o indivíduo presente naquele local estava velho, ou com a saúde comprometida, tanto para fins de estudo quanto para fins de segurança, era com o corte do tronco. Com a chegada da tomografia, agora é possível obter um diagnóstico exato sobre o estado de determinada árvore sem causar quaisquer danos à ela, fazendo com que apenas as árvores que conferem algum tipo de perigo à segurança sejam removidas. Ela faz parte do protocolo de segurança arbórea adotada pelo município e integra um conjunto de ações coordenadas pela Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (Seconser).
Mas o que, de fato, é a tomografia de árvore e como ela funciona?
A tomografia de árvore, também conhecida como tomógrafo de tronco, é um equipamento de ultrassom formado por sensores que conseguem, a partir da passagem de energia que passa pela madeira, reconstruir as seções transversais completas – os anéis que permitem com que nós saibamos a idade do indivíduo – e então nos trazer informações detalhadas como estado da planta, se ela está mofada, entre outros. Para funcionar, os responsáveis por realizar esse tipo de experimento instalam os sensores ao redor do tronco de maneira estratégica – podendo chegar a até 12 sensores – e, uma vez posicionados, emitem sinais que atravessam a madeira até outro sensor, que retornam ao computador que está conectado à eles com informações sobre sua integridade. Basicamente funciona como um grande raio-x das árvores.
Todos os dados coletados a partir do Tomógrafo de Tronco são gerados e atualizados pelo sistema SiGeo – Sistema de Informações Geográficas de Niterói, plataforma criada pela prefeitura que visa integrar, armazenar, analisar e disponibilizar dados geográficos sobre a cidade na internet – e, com ele, é estruturado o protocolo de segurança que identifica quais árvores precisam de maior atenção, além de orientar as decisões de manejo, recuperação e substituição. Aqueles indivíduos que possuem risco inferior a 35% serão aqueles que o protocolo irá pedir um manejo cujo foco é redução de carga, como corte de grandes galhos; caso o risco seja superior a essa porcentagem, o protocolo considera a planta com um caso crítico e pede a remoção dela daquele local.
Mas as informações que o tomógrafo de tronco registram não ficam contidas ao SiGeo; elas são registradas e monitoradas pelo censo Arboribus – um dos censos arbóreos mais completos do país, de livre acesso pela internet (https://sig.niteroi.rj.gov.br/portal/apps/mapviewer/index.html?layers=9fd18459f2c048a1ad07ab79a7002545) – que, com árvore catalogada em seu sistema, te dá informações detalhadas do indivíduo como nome científico, nome popular, origem, dimensões (altura, tamanho da copa, diâmetro) e a avaliação fitossanitária, que pode ser classificada como boa, regular, ótima, ou ruim.
Dessa forma, podemos concluir que a tomografia de árvore é imprescindível para o manejo das espécies vegetais na cidade de Niterói, evitando retirada de árvores sem necessidade na área urbana e assim preservando a flora da região.





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