A árvore e o pintor- o jambeiro do Solar
- luizmors9
- 9 de out.
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Atualizado: 10 de out.

O jambo é originário do Sudeste Asiático e das ilhas do Pacífico, sobretudo a região de Malaca (atual Malásia), de onde recebe seu nome científico, Syzygium malaccense. Ele foi trazido para o Brasil pelos portugueses, fazendo parte do enorme processo de circulação global de plantas durante o período colonial. Do ponto de vista ecológico, o jambeiro não encontrou problemas para se adaptar ao novo ecossistema. Suas flores atraem abelhas, morcegos frugívoros e aves, se integrando rapidamente às redes ecológicas locais. Do ponto de vista social, a planta também foi bem recebida. Não se pode dizer que tenha se tornado um ícone brasileiro, como aconteceu com a jaca, a cana, o café ou a manga, que se incorporaram às redes coloniais de comércio, mas foi bem aceita pelo seu sabor suave, e principalmente pela beleza da árvore e de seus frutos. Sua copa exuberante e sua floração rósea encontrou lugar nos jardins e nas praças. Essa coloração seria fundamental para o destino da árvore que estamos falando.
O comerciante português Bento Joaquim Alves Pereira construiu o Solar do Jambeiro em 1872, em um terreno que havia adquirido na Rua dos Banhos nº 2 (hoje Rua Presidente Domiciano, nº 195), no bairro do Ingá. Apesar das dificuldades em obter informações sobre Bento Joaquim e sua família, tudo indica que eram prósperos. Nessa época, Niterói experimentava crescimento urbano e expansão de residências sofisticadas, e a presença de azulejos portugueses na fachada da casa, telhas importadas e ornamentações, indica que Bento Joaquim Alves Pereira não havia economizado na construção do solar. Apesar disso, ele e sua família pouco usufruíram do lugar, que foi alugado a maior parte do tempo que pertenceu aos Pereira. Em 1888, a casa foi alugada pelo seu morador mais ilustre, o pintor Antônio Parreiras.
Parreiras (1860–1937) foi um estudante muito promissor da Academia Imperial de Belas Artes, onde conheceu seu mentor, o pintor alemão Georg Grimm. Grimm havia vindo ao Brasil alguns anos antes, contratado como professor da Academia. Sua metodologia, entretanto, entrou em conflito com o ensino acadêmico oficial, que privilegiava o desenho rigoroso e o acabamento detalhado. As pinturas deveriam ser feitas dentro dos ateliês, onde existiam as condições técnicas ideais. Grimm, ao contrário, defendia que a paisagem deveria ser pintada diretamente da natureza, em contato com a luz, as cores e as atmosferas reais. Pode-se dizer que Grimm antecipava as correntes estéticas que, em breve, resultariam no impressionismo: a ênfase na luz e cor, o uso de pinceladas curtas e soltas, a pintura ao ar livre para capturar o efêmero da natureza, o abandono dos contornos nítidos, a busca pela representação do cotidiano e do movimento. Insatisfeito com as imposições da Academia, Grimm abandonou o cargo de professor em 1884, mas já havia reunido ao seu redor um grupo de jovens pintores que se tornariam os primeiros paisagistas modernos do Brasil, incluindo Antônio Parreiras.
O grupo passou a frequentar juntos as praias de Niterói, onde realizavam estudos ao ar livre, algo inédito no Brasil até então. Conhecidos como “Grupo Grimm”, promoveram uma verdadeira revolução estética, ao rejeitarem a tradição acadêmica de copiar modelos clássicos ou paisagens idealizadas, afirmaram a autonomia da paisagem brasileira como tema digno da grande pintura. Assim, revelaram ao público o valor estético dos cenários tropicais e da natureza local, tratados com espontaneidade, naturalismo e forte sensibilidade pela atmosfera das paisagens retratadas. O grupo, entretanto, teve curta duração. Logo no início de 1887, Grimm retornou à Alemanha, e seus discípulos seguiram caminhos individuais.
Após a dissolução do grupo, Antônio Parreiras viajou para a Europa, onde estudou em Veneza e em Paris. Quando retornou ao Brasil, trouxe influências do naturalismo europeu, mas sem abandonar o impulso inicial recebido no Grupo Grimm, e buscou residência na cidade onde havia aprendido, ao ar livre, os segredos da pintura de paisagens. Em 1888 aluga o imóvel construído pelo comerciante português. A essa altura, Parreiras já se destacava como o principal pintor de paisagens do Brasil, com uma capacidade única de representar a energia das matas brasileiras, em paisagens que refletem a relação entre homem e natureza. Ao longo de sua carreira, ele desenvolveu um estilo único de "retratos de árvores" e "interiores de floresta", onde as árvores ganham destaque como protagonistas de suas composições, tão importantes nos quadros quanto as pessoas retratadas.
Coube a Parreiras o plantio do jambeiro nos jardins da casa onde residia. Não escapou ao pintor os traços fortes dessa árvore, que conduzem o olhar à copa exuberante. O mestre da pintura ao ar livre valorizava a sombra farta que o jambeiro proporciona, mas também buscou a profundidade e a expressividade de sua folhagem, e reproduziu em seus quadros as linhas verticais presentes em seu tronco, que tanta força conferem à essa espécie. Há ainda uma dimensão estética inescapável: poucas árvores oferecem um espetáculo visual tão impressionante quanto o jambeiro em flor. Quando a copa se cobre de milhares de flores róseas, a visão transforma o jardim em um verdadeiro quadro vivo, capaz de rivalizar com a ornamentação arquitetônica da casa. O jambeiro, que pode atingir 15 metros de altura, tem crescimento lento quando plantado à partir da semente, mas uma vez que se transplante uma muda, ela cresce com facilidade, alcançando 3 a 4 metros nos primeiros 2 anos. Parreiras pode acompanhar o crescimento da árvore nos sete anos que viveu ali, e contemplou o espetáculo da chuva de pétalas, que, durante sua floração intensa, transforma o entorno das árvores, criando um verdadeiro tapete vermelho.

Parreiras mudou-se em 1895, para uma casa nas proximidades do Solar, e abriu sua própria escola de pintura. Sua casa é hoje o Museu Antônio Parreiras, localizado na Rua Tiradentes, a alguns metros do Solar do Jambeiro. Ele também dá nome à uma rua que liga o bairro da Praia Vermelha à praia de Boa Viagem, local de encontro dos artistas do Grupo Grimm. Parreiras morreu em 1937, deixando uma obra genial. Foi certamente o pintor mais identificado com a cidade de Niterói e um dos maiores paisagistas do Brasil. Entre o seu enorme legado, além dos quadros, das ruas e do museu, está a árvore que ele plantou, e que dá nome ao Solar do Jambeiro.
Testemunha silenciosa, o jambeiro atravessou as transformações do bairro do Ingá, das festas aristocráticas da Belle Époque à efervescência cultural do século XX, quando o Solar se consolidou como centro de arte e literatura. Hoje, ao visitar o espaço, é impossível não notar a árvore que, mais do que dar nome ao local, confere-lhe identidade. Assim como as mangueiras do Museu do Ingá, o jambeiro do Solar é um patrimônio vivo, cujas raízes se entrelaçam com as da cidade. A história não se preserva apenas em documentos e tijolos, mas também no verde que resiste, na robustez dos troncos e nas cores vibrantes das florações. Uma vez por ano, quando o jambeiro perde as flores, estendendo ao seu redor um tapete vermelho, ele presta homenagem ao maior pintor de paisagens brasileiro, que deu às árvores o merecido protagonismo nas telas onde retratou o Brasil.

Quadro de Antônio Parreiras - Panorama de Niterói, pintado em 1892, quando ainda morava no Solar do Jambeiro. No panorama que o artista cria da cidade onde mora, tanto a cidade quanto as árvores são protagonistas.

Quadro A Tarde, um dos últimos pintados pelo artista, em 1937. As árvores pintadas em sua força e expressividade
Para usar em sala de aula:
BIOLOGIA
SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO e NOMENCLATURA CIENTÍFICA
ECOLOGIA, FRUGÍVOROS, SISTEMAS DE DISPERSÃO DE SEMENTES
HISTÓRIA
HISTÓRIA do comércio ultramarino e do transporte de plantas durante o período colonial. História da cidade de Niterói.
ARTES
Grupo Grimm. Museu e obras de Antônio Parreiras.




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